Publicado por: viannamar | 24/10/2010

O Estilo Brasileiro de Administrar

O texto abaixo pretende ser um resumo dos capítulos iniciais do Livro “O Estilo Brasileiro de Administrar”, dos autores Betânia Tanure de Barros e Marco Aurélio Spyer Prates.

A elaboração deste Livro destaca-se como trabalho inserido no contexto de desenvolvimento de pesquisa patrocinada pelo Centro de Tecnologia Empresarial da Fundação Dom Cabral.

A Fundação Dom Cabral é um centro de excelência de desenvolvimento de Executivos, empresários e empresas, que pratica o diálogo e uma escuta comprometida com as organizações, construindo com elas soluções educacionais integradas, sediada na Lagoa dos Ingleses em Alphaville – Nova Lima – MG.

Em 2010, a Fundação Dom Cabral conquistou a 6ª posição no ranking mundial de educação executiva publicado pelo jornal inglês Financial Times. Entre as 45 instituições classificadas, a FDC é a melhor colocada da América Latina. Entre escolas com sede nos países BRICs, a instituição também é a primeira.

http://www.fdc.org.br

Para os alunos de Cultura Organizacional, pede-se a leitura do livro, no respectivo tema que estamos abordando, para uma maior compreensão das aulas.

1.1           Estilo e Cultura

O estilo brasileiro de administrar é único e original, foi criado pelos dirigentes, gerentes e colaboradores que estavam envolvidos no convívio das nossas organizações.

Havia nos anos 50 e 60, no mundo, uma corrente que afirmava que para as organizações prosperarem haveria a necessidade, somente, de aplicar eficientemente os conceitos de administração, que os objetivos seriam alcançados.

Neste período chegaram ao Brasil, várias multinacionais, trazendo consigo as culturas vindas de seus pais, o que fortemente contrastaram com os traços culturais de nosso país, evidenciando o caráter e identidade nacional brasileiro. Á medida que as ações econômicas das organizações não conseguiam sobrepujar o social e o cultural, havia uma clara necessidade de entender o modelo que estava sendo implantado.

Nos tempos atuais, ainda que a globalização seja uma tônica das organizações, buscando unir as políticas econômicas a níveis de macro região, procura-se respeitar a identidade cultural e as barreiras sociais de cada país, onde estas organizações multinacionais estão instaladas.

As organizações, sejam nacionais ou multinacionais, tendem a respeitar e aceitar as diversidades culturais dos locais em que estão instaladas, diferenciando-se das matrizes em alguns aspectos.

Neste cenário, que se apresentam as organizações devem ser vistas como unidade econômica, em sua função empreendedora e produtiva, e como unidade sócio cultural, palco de fenômeno de socialização e aculturamento.

1.2 Sociedade e Cultura

O homem vive em sociedade de agregados humanos, tem princípios comuns que lhe dão organicidade e um padrão de relacionamento duradouro de associação. O resultado uma sociedade original, no tratamento do cotidiano.

Para melhor entender e caracterizar a relação da cultura com a sociedade, observamos:

o caso das abelhas ou formigas. Além dos seres humanos, estes animais como outros tem uma vida social. Podemos dizer que estão todos voltados para o mesmo objetivo comum de sobrevivência, trabalhando organizadamente com uma divisão de tarefas bem delineada. Apresenta uma estrutura em que se diferenciam os quarteirões ativos e seus armazéns para ovos. Também se relacionam de forma predeterminada e sua origem, até onde se sabe, é de ordem genética. Este comportamento padronizado é fruto de um aprendizado com as formigas adultas.

Como não somos formigas e nem abelhas, podemos considerar que a cultura não é geneticamente pré-determinada.

A cultura é o resultado da invenção social e é transmitida e apreendida somente através da interação, do processo de comunicação e do aprendizado.

Por isto não podemos considerar que as formigas ou abelhas que vivem em agrupamentos tenham cultura em suas atividades laborativas ou em sua forma social de viver.

Não podemos esquecer a citação do antropólogo americano “Hoebel – 1990: O homem é o único animal que fala de sua fala, pensa o seu pensamento, que responde a sua própria resposta, que reflete seu próprio reflexo e é capaz de diferenciar-se mesmo quando está se adaptando a causas comuns e estímulos comuns.”

Por este entendimento que a cultura não é estática ela muda e se adapta ao seu povo ao passar dos tempos.

Esta mudança ocorre porque os costumes estão embasados em conjunto de valores e crenças aceitos pela sociedade. Estes valores e crenças são influenciados por novos movimentos culturais, econômicos, sociais e políticos.

Se não fosse estes movimentos de mudança que ocorrem estaríamos hoje ainda admirando a beleza de formas torneadas das mulheres dos anos ‘50” em contraposição ao modelo esquio e da magreza da mulher de hoje.

Outra observação importante nas mudanças culturais são os interesses em relação ao consumo que veio com a mudança do homem do campo para a cidade.

1.3 Classificações da Cultura

Os dois principais traços da cultura são o inventário e a estrutura.

O Inventário trás os traços e,

Estrutura o seu funcionamento.

Novamente em ambas apresenta o estático o dinâmico.

O complexo é entender a dinâmica dos diversos traços da cultura.

Porém para selecionar traços significativos, é preciso conhecer algumas formas de identificá-los.  Neste momento passa a ser questão a natureza do mundo exterior e do próprio homem.

Para ter um esquema mais simples de classificação de cultura, toma-se por base os valores típicos, como existente em todas as culturas, o que é diferencial entre as sociedades é o que caracteriza a essência desta cultura.

Identificado o diferencial passaríamos para a completa tipologia dos sistemas culturais.

Vários autores diferenciam o traço dos fundamentos da cultura brasileira. Um deles toma por base:

  • o masculino/feminino, individual/coletivo, distância do poder/igualdade e controle da incerteza/certeza.
  • o outro refere-se ao espaço de rua e ao espaço de caso.
  • Entre outros.

 Nas organizações os principais traços culturais advém de dois eixos principais que se formam através:

  • Institucional/pessoal
  • Líder/liderado

 Um simples aperto de mãos pode ter vários significados, que é dado por duas pessoas que acabaram de se conhecer, ou por dois namorados, ou se realizados entre pessoas que tinha uma inimizade anterior. Como fazer para simular o clima e as motivações?

Podemos reconhecer que no Brasil pode ser visto como uma sociedade pluralista, com influencias raciais diversas, estados com fortes traços de culturas regionais, como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Estados com fortes valores econômicos e grande numero populacional, que imprimi manifestações fortes no cenário nacional.

Sistema de Ação Cultural Brasileiro

Várias são as análises e estudos que são feitos de diversas teorias de administração, umas caracterizam por aspectos mais mecanicistas, outras por aspectos comportamentais ou mais sociais.

Prefiro abordar o tipo de enfoque tem caracteriza a nossa matéria de Cultura Organizacional, que é da ênfase ao aspecto cultural. Observando os limites do ambiente em que estas organizações estão inseridas.

Podemos afirmar que ações administrativas têm em sua essência cultura, que caracteriza o estilo de conduzir as organizações.

Modelo de cultura Brasileiro

O sistema de cultura brasileiro está fortemente ligado aos traços culturais e os principais deles são:

  • Institucional/pessoal
  • Líder/liderado

Vamos separar estes traços como subsistemas, Institucional, Pessoal, Líder e Liderado.

Para maior compreensão, vejamos onde podemos encontrar com maior freqüência estes modelos.

O Institucional – espaço da rua

O Pessoal – espaço de casa

O dos Lideres – naqueles que detém o poder

O dos Liderados – abrange aqueles que são subordinados

Não podemos dizer que estes subsistemas vivem sozinhos e independentes, eles são dinâmicos, ao mesmo tempo que uma pessoa que esta inserido no subsistema dos Liderados, pode também se inserir nos demais.

Há momentos que estamos atuando de forma impessoal e a momentos que estamos atuando como pessoas.

Composto Sistêmico dos Espaços Culturais

“Veja os desenhos que foram feitos em sala de aula  ou no Livro citado no inicio do texto.”

Admitindo estes quatros subsistemas, que opera nas empresas no dia a dia, surge ás possibilidades de convivências do líder com liderado e o institucional com as pessoas.

Quando nas organizações todos são Lideres, podemos dizer que há horizontalização e quando todos são Liderados há o processo de verticalização.

Quando os critérios pessoais são bastante forte na organização, podemos perceber que a estrutura organizacional ela é familiar.

E o inverso se observa quando o subsistema Institucional sobrai no processo de profissionalização das empresas familiares.

Nas interseções destes subsistemas destacam-se a Concentração do Poder, o Personalismo, o Espectador e o que Evita Conflitos.

Estes subsistemas refletem os traços culturais especiais, que acabam rompendo o subsistema como um todo, são eles: paternalismo, a lealdade as pessoas, o formalismo e a flexibilidade.

Enquanto o Paternalismo e a Flexibilidade ligam o subsistema Institucional com o Pessoal, o Formalismo liga os subsistemas dos Lideres com os Liderados.

Temos ainda um traço central, que não foi dito, que é o da impunidade. Este traço interliga os Lideres com os Liderados, o Institucional com o Pessoal realimentando os subsistemas.

Sistema dos Líderes

Consideramos em nossos subsistemas as características, em nossa cultura, inerentes àqueles que estão na posição de mando.

Isto não significa somente os Governantes, podem também ser o Mestre de Obra em sua relação com os operários.

Vale ressaltar que os traços aqui apontados são situacionais fazem presente no momento em que alguém assume a posição de Liderança.

Na dimensão hierárquica, o que existe é a Concentração do poder. Ao seu lado, esta o Personalismo, presente na dimensão pessoal e da sociedade.

Um terceiro elemento surge na articulação destas duas dimensões, que é o Paternalismo, que tem um papel especial na cultura brasileira.

Concentração do Poder: em termos de realidade brasileira, podemos conceituar poder sob a ótica da autoridade legitima.

A legitimidade pode vir através do consenso ou por voluntarismo da sociedade, das quais a autoridade se estabelece. Vem por meio de tradição, por princípios racionais-legais ou de carisma.

Exemplo de Autoridade por tradição: quando os reis eram elevados ao trono por tradição familiar e a eles se concedia a origem divina dos governantes. Da mesma o filho primogênito reivindicando o trono para si.

Exemplos de Autoridade Racional-Legal: decorrente da evolução dos sistemas políticos. Podemos citar a escolha por um membro de um Governo ou um Governante que escolhe e seleciona pessoas.

A legitimidade sempre vai ser baseada no principio da aceitação do conjunto comum das leis e dos métodos instituídos para criação das leis.

A terceira base de legitimidade das leis tem haver com o carismático, que está fortemente ligado ao Personalismo.

Estrutura do Poder: Autocracia, Poliarquia Limitada e Ilimitada.

A Autocracia apresenta-se como centro do poder coeso, consideravelmente homogêneo e concentrado muitas vezes em mãos de um homem forte.

Já a Poliarquia limitada, graças ao incipiente processo de organização institucional de interesses, na qual se começam a diferenciar grupos da sociedade, é exercida por um grupo monopolista do poder, em constantes colisões ora com um, ora com outro grupo de pressão. Estes, dada a sua fragilidade de poder, ainda não se constituem como “grupo de veto”, sem, portanto, influenciarem definitivamente nas decisões.

Esta limitação provoca fragilidade do poder.

Na Poliarquia exercida de forma ilimitada o poder é exercido sem excessos na centralização do poder, existindo ampla participação na elaboração da das decisões.

Nas organizações que adotam a Poliarquia ilimitada os interesses tendem a exprimir de modo organizado ou institucionalizado.

Personalismo:  O grau de influência de alguém  com o seu discurso para com os outros.

A base legitima desta autoridade é o carisma.

 Em outra dimensão observamos em nações o Individualismo e Coletivismo.

Paternalismo: A combinação dos dois traços mencionados, concentração de poder e personalismo, em maior ou menor grau, tem como síntese o paternalismo que se apresenta de duas facetas.

  • Patriarcalismo: A face supridora e afetiva do pai, atendendo o que dele esperam os membros do clã

 

  • Patrimonialismo: A face hierárquica e absoluta impondo com o tradicional a aceitação, a sua vontade aos seus membros, convivem lado a em nossa cultura.

Subsistema Institucional

A liberdade individual e o grau de autonomia estão na base da dinâmica deste subsistema.

A Concentração do Poder e o Paternalismo induzem um novo traço na cultura brasileira que é a postura do Espectador. Concomitantemente, apresentamos um dos principais elementos que articulam, dentro do subsistema institucional.

O subsistema dos Lideres e Liderados, garantindo, na ação, a sua convivência.

É o fenômeno do formalismo, uma das formas mais significativas e relevantes de como nossa cultura procura fugir as incertezas do futuro.

O traço da impunidade tem fortes reflexos no subsistema pessoal, que podem também minar, a manutenção e a estabilidade do sistema de ação cultural brasileiro como todo.

Espectador

Como podemos caracterizar a sociedade brasileira em suas posturas mais próximas de uma sociedade aberta ou fechada, no subsistema institucional.

O homem brasileiro desenvolveu-se no ambiente do tempo do mandonismo, de protecionismo e dependências que são encarnados pelo paternalismo.

 

Com estas mesmas condições, para o mutismo brasileiro, uma sociedade na qual a prática do diálogo, visto como o processo real de comunicação.

O mutismo brasileiro tem suas raízes bem caracterizadas.

Mutismo: mudez, silêncio

O mutismo brasileiro vem da falta de resposta do teor do seu povo.

Vimos de uma sociedade fechada em sua consciência, caracteriza pela quase centralização dos interesses do homem em torno de formas mais vegetativas da vida. Suas preocupações não saem do plano biológico com objetivos básicos de sobrevivência.

Seu especto de compreensão do universo que vive é limitado pois falta-lhe qualquer compreensão fora da órbita que gravita.

Ainda temos muitos brasileiros que se encontram nesta situação.

A medida que se amplia o poder de respostas que saem do seu ambiente e começa a dialogar com outros homens, fora do seu mundo, inicia-se um processo de consciência transitiva.

Esta consciência é um primeiro estágio, ainda ingênua. Pois o convívio em cidades grandes, centros urbanos, nos faz pensar que por viver nestes ambientes, resolvemos e interpretamos os problemas. A formula não é simples, praticamos e aceitamos as soluções mágicas sem o devido aprofundamento.

Interpretamos as soluções dos problemas superficialmente, em sua maioria com forte apelo emocional, não aprofundando no questionamento do problema.

A Polêmica ou o Conflito criados em torno do problema não resultam em diálogo de aprofundamento da questão.

Inexistindo senso critico da questão exigindo maior profundidade na interpretação dos problemas, substituímos explicações mágicas por princípios causais.

Esta situação é tipicamente brasileira, ainda que digamos que as pessoas com menor grau de escolaridade ou mesmo a grande parcela analfabeta, enquadram-se neste perfil, podemos também citar elites com este perfil.

Elite: o que há de melhor numa sociedade ou grupo social

As elites por não aprofundar nas questões importam. Indiscriminadamente modelos sem a capacidade de adaptar as nossas condições culturais.

Funcionamos, reflexivamente, orientados pela autoridade externa. Nosso centro de gravitação da essência do problema, em sua maioria não estão em torno de nossa referência.

A nossa consciência critica é deixada de lado.

Este desequilíbrio do poder da consciência, nos deixa sem liberdade e sem autonomia e com baixíssimo censo crítico.

Caracteriza-se o traço cultural do Espectador, o mutismo, baixa consciência critica e por conseqüência, a baixa iniciativa, a pouca capacidade de realização por autodeterminação e de transferência de responsabilidade das dificuldades para as lideranças.

Aceitação passiva de sua realidade.

Transferência da Responsabilidade.

Capacidade por autodeterminação é reduzida.

Formalismo

Podemos dizer que é o controle da incerteza numa dimensão cultural.

Baixo índice de controle da incerteza.

As três formas de transmitir maior segurança e evitar riscos futuros: a tecnologia, as leis e a religião.

Através da tecnologia nos protegemos dos riscos da natureza.

Através das leis e toda espécie de regra formal e de Instituições, nós nos protegemos da imprevisibilidade do comportamento humano.

Religião, no seu sentido mais amplo, incluindo ideologias ou movimentos dogmáticos, pode propiciar uma sensação em relação a aspectos que transcendem a realidade humana.

O traço cultural original de cada sociedade é a ênfase que é dada a um ou mais destes três elementos.

Impunidade

Este traço é o alimento de toda a cadeia do sistema é o elo de interligação.

Onde a lei só existe para os indiferentes e nem todos tem os seus direitos individuais respeitados, a indiferença e apatia crescem neste ambiente.

A impunidade torna heróis quem vive fora do sistema, exemplo: as milícias.

Subsistema Pessoal

Este subsistema está baseado na segurança e na harmonia.

É formado pelo Personalismo, traço cultural Lealdade as Pessoas e por último evitar o conflito.

O sistema de Pessoal é o contra ponto do sistema dos Lideres e Liderados.

Coesão Pessoal: pressão do grupo para que os seus membros continuem a sua participação.

Atração pelo Grupo: 03 tipos – pessoal, tarefa, prestígio.

A ligação entre o Líder e o Liderado neste subsistema de forte apelo no comprometimento com o Líder, fator de confiança, ao inverso do traço Formalismo que caracteriza pela regras.

Este subsistema caracteriza-se pela coesão, mas pode provocar “searas”.

Evitar Conflitos

Este ponto de confluência dos traços liderado e pessoal tem forte influencia na posição Líder x Liderado, pois o traço de Evitar Conflito está muito presente. A opção por eliminar conflito espera-se que sempre vem do Liderado, pois do Líder já se espera esta posição e ainda não tem a preocupação de evitar o conflito.

Esta intercessão traz o fator cooperação, para evitar confrontações e situações embaraçosas para os envolvidos.

Subsistema dos Liderados

Neste subsistema já vimos a Postura do Espectador e Evitar Conflitos, basta agora falar sobre Flexibilidade, pois ele que faz a ligação do Traço Institucional e Pessoal no campo de visão dos Liderados.

Flexibilidade

Caracteriza-se muito mais pelo jeito de ser, de fazer, um traço representativo da cultura e principalmente na brasileira.

Sobressai como traço de sobrevivência, preservação da pessoa em atendimento ao formalismo.

Este traço estimula a criatividade e adaptabilidade.

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